Mãetamorfose em Palavras

Diferentes Pais. Mesmo Amor.

24 abr de 2014 comentários
Tá vendo essa foto ai de cima? Nem sempre elas passam o feriado ou o final de semana assim: Grudadinhas. Elas têm os seus momentos “separadas”, e estes estão começando a aguçar, no mínimo, a curiosidade da Miúda, e a saudade das DUAS. Vida de Irmãs com pais de casamentos diferentes, é assim. E eu nem tinha parado pra imaginar muito como seria. Prefiro viver pra ver. E deixar meu sentimento agir. Sempre.
Tempos atrás, quando a Miúda dava a falta da irmã e prontamente me perguntava onde ela estaria, eu respondia – mentindo e cometendo um erro que logo mais vocês verão junto comigo a consequência – que a Princesa estava na escola, no balé, em qualquer outro lugar que não a casa do Pai. Tomava essa atitude por achar que a Miúda não entenderia nenhuma explicação “mais complexa”. Até então, ela não tinha nenhuma noção que as duas não seriam filhas do mesmo Pai. Nem muito menos o que isso significava. 
Na minha cabeça, seria uma confusão daquelas tentar explicar pra uma criança de 2 anos e meio toda essa complexidade perfeitamente real de se viver em uma grande família, e nela ter outros integrantes que não se convive tanto assim, e ao mesmo tempo são tão importantes quanto qualquer um ali. Que sua irmã, que divide da mesma Mãe, deveria dividir o mesmo Pai, oras. E dividem de fato. Meu marido, o Pai de Miúda, sobrepõe o seu papel e o seu amor igualmente as duas. Ele só não substitui o Pai da Princesa, porque este, por sua vez, é um Paizão super presente. E essa necessidade ou esse desfalque, graças a Deus, a minha Princesa não precisou passar na vida.
Só que a Miúda vem crescendo. E com isso, a sua vontade de compreender o mundo torna-se mais abrangente. Mais interessada. Mais indagadora. E mais. Esse balé não acaba, não? Essa escola é para sempre?
– Cadê “Sosó”, Mainha?
Era uma pergunta que surgia, repetidamente, afora sua mente, e chegava bem pertinho de mim. Notei que algo estava faltando na minha resposta, e que ela não estava tão mais convencida assim.
Decidi de uma hora pra outra falar sem mais rodeios:
– Sua irmã está na casa do Papai dela. (Saiu assim, ploft! Sem parar pra raciocinar)
Continuando…
 – Sim, o papai dela é Tio Alexandre. (Remetendo a alguém que ela já teve algum contato, belos encontros, sem nenhum questionamento, ela até já se propôs várias vezes a acompanhá-los nos passeios.)
Ela olhou pra mim num espanto, puro. Abarcando outra pergunta visivelmente abalada:
– E Sosó tá com outra irmã? (Pergunta típica de um serzinho lindo, territorialista e ciumento)
– Não, meu amor. Sosó só tem você como irmã. (Até pensei em usar a palavra “por enquanto”, mas na minha cabeça para não me atropelar ainda mais a situação eu deixei pra lá…). Vocês duas nasceram da Barriga de Mamãe. Lembra?
(Neste mesmo momento eu corri pra mostrar, agora sob um novo olhar da Miúda, meu álbum de gestante onde ela se encontrava na minha barriga e a Princesa estava por lá, bem juntinho, ao nosso lado).
Continuei…
– Sosó tem dois Papais: Tio Alexandre e o seu Papai Jorge. Papai Jorge é o Papai do Coração da Princesa.
Ela lançou um olhar duvidoso. Como se aquela cabecinha tivesse tentando arduamente digerir o que tinha sido dito. Acredito que ela não tenha entendido tão bem. Ou sim? Acredito que as palavras penetraram em seu coração, deram uma voltinha por lá, e não quiseram pedir mais pra se explicar.
Silêncio.
Não demorou muito e veio outra seqüência de palavras soltas e interrogativas: “Sosó tá com o papai dela? Tá? Sosó é minha “izmanzinha, né Mainha?”. E repetiu a mesma ladainha… “Cadê Sosó? Tá com o Papai dela?…”
De repente, num cochilo a tarde. Ao levantar com um olho aberto e outro nem tão aberto assim, ela se deparou com sua “izmãnzinha” chegando da escola e falou meio choramingando, meio atordoada, meio dormindo acordada:
– Não, Sosó!!! Não faça isso. Você nasceu na minha Barriguinha, Sosó…
Após esse acontecido acontecer. E a gente penar pra tentar decifrar aquele desespero momentâneo da Miúda, só me restava pensar que o que ela queria dizer era que a Princesa era pra ser tão sua irmã, mas tão sua irmã, que era pra ter vindo de dentro dela. Que era pra ser tudo igual entre elas como antes ela achava. Mesmo papai, mesma mamãe, mesma família. “Sem divisão”. Ela confundiu as bolas. De certo. Eu tenho culpa nesse cartório. Poxa! Eu achei que ainda não era tempo para esse “contratempo”. Essa parte crucial da história teria que ser maturado aqui fora para depois voltar a entrar. (Outro erro ter pensado assim, e a gente vai ver mais adiante o porquê).
Hoje, quando ela retoma as perguntas do final de semana não (final de semana com a Princesa = a Sim, sem a Princesa é = a Não), eu volto a falar que a Princesa foi a praia (não digo com quem), que foi pro cinema (só não digo com quem), que foi passear. E posso confessar aqui que o intuito era mesmo evitar de falar: “Com o Papai dela”,  para deixar o tempo passar e poder conversar com ela melhor, quando ela tivesse mais “preparada”. Agora analisando com mais calma, eu vejo como a gente menospreza o poder de entendimento de uma criança pequenina, hein? Todas as minhas ações foram justamente “subestimando”, ou melhor, tentando “proteger” a cabecinha dela.
Da próxima vez que ela perguntar pela irmã, irei contar a nossa história de outra forma. Mesmas informações, só que com encenação – aprendi a lição, viu Tia Amanda? A nossa configuração e relação familiar tão cheia de verdades, posso assim falar, não precisa desses artifícios para poder reinar. 
O que sei é que Elas conviverão com esta saudade no final de semana não, se falando ao telefone, se amando, se abraçando a cada reencontro. E como eu amo ver esse reencontro…
Ah, o reencontro dos dias sim… Os dias com A Princesa são muito lindos. É tanto afago e carinho por infindáveis (para o meu coração) minutos, e aí, logo vem as briguinhas implicantes que  só irmãs sabem aprontar. E se bastar.  
Abro meu coração para saber com as mamães e papais que participam de uma família como a minha, onde os filhos partilham de pais diferentes, como foi este momento de contar pra eles que seus irmãos não eram dos mesmos pais ou mães. Se existe um  momento  certo pra isso. Se existe uma melhor forma, eu insisto. Vem! 
Bruna
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Nota de uma pessoa especial, que vem me ajudando e me orientando muito. Rumo a uma educação com menos traumas não só pros pequenos, mas pra gente também:
No meu olhar de psicóloga acredito que a verdade sempre deve ser dita para as crianças, lógico que de uma forma sútil e em uma linguagem de acordo com a idade. As crianças tem capacidade de entender muitas coisas que os adultos acham que não.  No caso de filhos de pais diferentes acredito que a verdade deva prevalecer desde cedo, que a história deva ser contada na linguagem da criança, mesmo que ela não compreenda tudo que você disser.
A criança muito pequena não consegue captar tudo que você explica, por isso ás vezes ela “esquece” e faz as mesmas perguntas várias vezes, o ideal é que você explique sempre a verdade mesmo que repetidamente, pois a medida que for crescendo vai compreendo melhor. É igual com uma criança adotada, o ideal é que os pais falem desde cedo, que são filhos de coração e aos poucos, a medida de seu crescimento a criança vai compreendendo melhor sua adoção, ou crianças de pais separados desde pequenas que perguntam porque os pais dos colegas moram juntos e os seus não, a medida que vão amadurecendo vão entendendo melhor a situação e os acontecimentos. Uma dica que os pais podem utilizar, é fazer um teatro com fantoches ou bonecos reproduzindo a história. 
Se os pais ficam inseguros de falar sobre o assunto, acabam passando isso para a criança (acredite, elas sentem e percebem) o que gera insegurança e medo, ou se mentem vira uma “bola de neve” e sempre ficam mentindo para sustentar suas mentiras anteriores. É importante a criança saber a verdade, principalmente porque ter irmãos com pais ou mães diferentes está atualmente mais comum do que se possa imaginar, se você trata o assunto como algo “proibido” “errado” ele vira uma coisa maior do que realmente é, e é ate mesmo tratado como um “problema”, que na verdade não deve ser. Sorte de Sofia de ter dois pais amorosos e dedicados, tem crianças que não tem nenhum. O que é importante são os laços criados, o investimento afetivo.
Por Dra. Amanda Pessoa de Melo
@amandapsicoloca_
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Aproveito para agradecer a Amanda pelo apoio de sempre. Decidi compartilhar a nossa conversa já nesse post, para que os pais que estejam passando pela mesma situação não comentam os mesmos erros que eu cometi.
Aqui fica a lição e o meu consolo sobre as palavras da mesma querida Dra. Amanda:Mas olhe, não se culpe por nada, pois tudo que você fez foi buscar o que você acreditava ser melhor para sua filha, mas todos somos seres humanos, pai e mãe não são perfeitos e não acertam sempre, errar faz parte, só não permaneça no mesmo erro. Quando ela perguntar da próxima vez conte a verdade, faça o teatro – com bonecos encenando os personagens da vida real, nós – não vai ser fácil, vai ser mais difícil do que se você tivesse contado desde o inicio, mas é necessário.Quer sirva pra acalentar o coração de vocês, também!