Dica do especialista

A ingestão de bebidas açucaradas por gestantes e o aumento de índice de massa corporal na primeira infância

8 maio de 2017 comentários

Beber-Suco-Durante-a-Gravidez

Já parou para pensar que o consumo de sucos e refrigerante na gravidez, pode estar relacionado ao aumento do índice de massa corporal infantil? É o que concluiu um estudo holandês, publicado na revista American Journal of Clinical Nutrition, em março desse ano.

Um total de 3312 gestantes foram acompanhadas desde o primeiro trimestre, e seus filhos tiveram peso, índice de massa corporal (IMC) e percentual de gordura corporal avaliados até os 6 anos de idade. A maioria das mulheres incluídas tinha elevado nível educacional, não fumou durante a gravidez e usou a suplementação de ácido fólico. Foram excluídas do estudo as pacientes que apresentaram comorbidades como diabetes gestacional e desordens hipertensivas, pois essas condições por si já podem alterar o peso da criança.

Entre as gestantes que mais fizeram uso de bebida açucarada – média de 2 copos por dia – (refrigerantes e sucos de fruta – tanto suco de fruta natural como concentrados), seus filhos tiveram maior índice de massa corporal (IMC) e gordura corporal (esta última medida, mais em meninas). Interessante o fato de que a bebida mais consumida pelas mulheres deste estudo foi o suco de fruta, quase 10 vezes mais presente que o refrigerante.

Um mecanismo que poderia explicar essa relação seria a ingestão excessiva de calorias provenientes de uma dieta que seria rica em bebidas açucaradas. No entanto, o estudo não mostrou relação de aumento de IMC nem de gordura corporal em crianças filhas de mães que faziam uso de uma dieta com maior aporte calórico total, e sim uma relação unicamente com o aumento do consumo de bebidas açucaradas.

Outro possível mecanismo seria que o feto poderia sofrer alterações em sua epigenética quando uma mãe tem ingestão freqüente de bebidas açucaradas durante a gravidez. Essas alterações podem levar à alteração da expressão gênica, o que poderia resultar em crianças mais suscetíveis à maior massa gorda. Há também uma exposição do feto (por transmissão pelo líquido amniótico) aos padrões de sabores de alimentos mais ingeridos pela mãe, e isso pode levar a uma maior aceitação a bebidas e alimentos com tendência a maior teor de açúcar pelas crianças.

O estudo nos leva a abrir os olhos para o excesso de sucos de fruta e refrigerantes presentes na dieta da gestante. Tem-se a impressão de que é saudável tomar sucos, pois estamos tomando vitaminas e nos hidratando, porém o suco de fruta tem elevado índice glicêmico, a frutose (açúcar das frutas) é excessiva, pois além de uma quantidade maior de frutas de uma só vez (quem é que come 4-5 laranjas em poucos minutos? É isso que se ingere ao tomar um suco de laranja dito natural e puro da fruta), na maioria das vezes o suco está sem fibras pois foi coado ou processado.

O ideal então, é comer as frutas, se possível com casca (após adequada higienização) e tomar bastante água durante o dia. Se for tomar suco, que seja feito com apenas uma porção da fruta (1 laranja, 1 limão, 1 maçã, meia manga, meio mamão papaya, 10 morangos, 12 uvas, etc), não coado, e após uma refeição rica em fibras. Uma opção é acrescentar uma fonte extra de fibras ao suco, como folhas verdes, chia ou sementes de linhaça.

Gravidinhas: seguem algumas sugestões, mas converse com seu médico (obstetra ou nutrólogo) ou nutricionista, sobre as melhores opções de bebidas para você.

  • Água, sempre;
  • Água de côco 1 copo/dia;
  • Suco verde (pode começar com 1 fruta, por exemplo: 1 fatia de 1cm de abacaxi, + 2 folhas de couve – sempre higienizadas, + 200ml de água mineral; e depois tentar adicionar fonte extra de fibras, como 1 colher de sopa de linhaça ou chia; e quem sabe até um pedacinho de pepino, que ajuda a reduzir o inchaço. Para quem tem o paladar mais para o doce, pode acrescentar um pouco do adoçante natural stévia);
  • Cafés e chás: depende da orientação do seu médico.
  • Bebida alcóolica: em nenhuma quantidade se provou ser seguro para o feto, então deve-se evitar por completo.
  • Refrigerantes: evitar (mesmo os sem açúcar). Fora a água, não há nenhum ingrediente ali presente que seja necessário à sua saúde. Se com muita vontade, espremer meio limão ou meia tangerina em água com gás e gelo.

Se seu bebê já nasceu e está ótimo, e durante a gravidez enquanto seu marido bebia vinho você se esbaldava no suco de uva, ou bebia coca-cola todo dia para melhorar o empachamento, nada de chorar pelo sucoleite derramado. Tente dar exemplo, manter uma dieta equilibrada. Não comprar refrigerantes para dentro de casa já é um ótimo início. Prefira comer as frutas e tomar um suco verde, nem que seja eventualmente, na frente do seu filho. Mesmo que por hora eles possam parecer resistentes, quem sabe um dia eles não estão replicando a mamãe? Em relação à sobrepeso e obesidade, o meio ambiente (fenótipo) ainda é mais importante que a genética.

Atenciosamente,

Dra. Manu 😊

O texto foi escrito por nossa colaboradora especialista Dra. Manuela Vanderlei Basto, Clínica Médica e Nutrologia. Tel 81 3427 9000; manuelavanderlei@gmail.com instagram.com/dramanuela

Referência: Jen V. et al. Mothers’ intake of sugar-containing beverages during pregnancy and body composition of their children during childhood: the Generation R Study 1. AJCN. First published ahead of print March 8, 2017. 10.3945/ajcn.116.147934.