Mãetamorfose em Palavras

Mãetamorfose tu: Mariana Mello

19 out de 2010 comentários
lipe fim de ano - 2009 (22)

 

As Mães costumam dizer que o amor delas é algo que só sendo efetivamente mãe para saber. Eu, claro, acredito, mas, sinceramente, posso ousar dizendo que sei do que se trata. É que aos dezesseis anos (uma idade, por si, bastante complicada) meu pai me deu a notícia de que eu ganharia um novo irmãozinho, de seu segundo casamento. Indiferença é tudo que senti ao longo da gestação de minha madrasta, a até mesmo depois que Felipe nasceu. Ele era um bebê lindo, gordinho, e com uma semana de vida dormia sorrindo como um anjinho, mostrando as barroquinhas mais lindas do universo, mas, mesmo assim, meu ciúme era maior do que qualquer outro sentimento.
Foi então que, em julho de 1999, o pai da minha madrasta sofreu um infarto e ela precisou viajar para São Paulo com ele. Como eram férias, fui convocada para ajudar meu pai e a babá com Felipe, com apenas dois meses de vida. E foi aí que o amor nasceu… Durante todo o mês, eu fazia questão de dormir com ele todas as noites, trocava fraldas, dava banho, mamadeira e banho de sol às 5h da manhã.
Em troca, recebi um amor tão lindo, tão sincero e tão puro, que sempre digo que este foi o maior presente que Deus pôde me dar. “aiaiaia” foi a segunda palavra que Felipe falou. E é assim que ele me chama até hoje, exceto quando está na frente de seus amiguinhos.
Quando Felipe tinha três anos, eu comecei em meu primeiro estágio. E todo dia depois do almoço era uma choradeira em casa, porque eu estava trocando as tardes de brincadeiras com ele para ir trabalhar. E todos os dias eu dizia: “- lipe, estou indo ganhar dinheiro para irmos ao game station, não é para você chorar”. Então, no dia que saiu a minha primeira bolsa – salário, em plena sexta – feira à noite, peguei Lipe em casa e fomos ao game station. Após quase duas horas daqueles brinquedos barulhentos, eu disse: “- pronto, Lipe, este é o último brinquedo porque o crédito acabou”, foi aí que ele disparou: “- Já acabou tooooooooodo o seu trabalho?” Como se dissesse que não valeu o esforço de um mês todo ausente das tardes em casa…
Como eu já disse, Lipe é filho do segundo casamento do meu pai, mas convive muito bem e tem enorme carinho pela minha mãe, com quem eu e minha irmã moramos. Um dia, ele estava sozinho com ela aqui em casa, quando perguntou: “- Tia Vitória, com quantos anos eu venho morar aqui com vocês?”, ou seja, na cabecinha dele, na época com seis anos, era assim que funcionava: após certa idade os filhos de papai iam morar na casa de Tia Vitória. E esta idéia foi difícil de tirar da cabeça dele, que sempre soltava coisas do tipo: “… quando eu for para casa de Tia Vitória…” “… o meu quarto na casa de Tia Vitória vai ser assim…”
Há dois anos atrás, quando eu e meu noivo, Augusto, começamos a pensar em casar, a minha mãe foi explicar para ele que estávamos começando a comprar apartamento, panelas, lençóis, coisas para um dia irmos morar, eu e Augusto, e nossos futuros filhos. Aí ele perguntou confuso: “- mas eles só podem casar quando tiver tudo, não é?”, minha mãe respondeu que sim, e, então, ele implorou: “- então comprar tudo bem devagar, Tia Vitória, por favor!!”
Enfim, em Abril de 2011 estarei casando e dando início a minha própria família. Felipe, claro, vai ser peça fundamental em meu casamento e vai levar as alianças, mas, como pré – adolescente que agora é, aos onze anos, disse que não quer frescuras.  O mais importante disto tudo é que daqui a pouco vou ter os meus próprios filhos, e sempre que penso nisto, eu me pergunto se um dia vou conseguir amar aos meus filhos mais do que amo ao meu irmão, porque é um amor tão grande, tão intenso, tão revestido de proteção, de cuidados… é um amor instintivo mesmo, e não é isto, que vocês, mães, sentem?

Instinto puro eu diria. Nós somos Animais com A maiúsculo em matéria de ser Mãe. Achei válida demais esta história de Mariana. Quantas famílias passam por esta “extensão” do lar? É a velha máxima dos meus, dos seus e dos nossos. Famílias que se fundem e o grande desafio é saber lidar com tudo isso.

Mariana Vieira de Mello é Oficial de Justiça (Ui!) e Mãe-irmã de Felipe Fofíssimo, como vocês podem ver na foto.