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Mãetamorfose tu: Quando o filho é, de fato, especial

12 maio de 2011 comentários

Quando o filho é, de fato, especial
Por Giulliana Bianconi

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Giu e Júnior no parquinho do prédio: autismo recém-diagnosticado
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Casamento de uma prima: Júnior não perde um evento!
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Irmãos matando a tal da saudade; No momento, moram em cidades diferentes
Não foi à toa que vim escrever aqui. Eu e Bruna (a “dona” toda linda deste blog) somos amigas de infância. De jardim da Infância, pra melhor dizer. E quando ela me convidou para escrever um post para o “Mãetamorfose”, pensei que seria uma boa para tocar num assunto que não é qualquer um que tem propriedade para falar, e que costuma ser delicado quando aparece na vida de uma mãe: o autismo.
Eu tenho a tal da propriedade. Sou irmã de um autista. Júnior, 29 anos, lindo, um doce, um ano e meio mais velho que eu. Mas na prática funciona assim: eu sou a irmã “mais velha” e, como toda irmã mais velha, já fui um pouquinho mãe em alguns momentos. Para quem já ouviu falar sobre o autismo, mas nunca entendeu muito bem do que se trata, é uma síndrome que não tem “causa” definida pela ciência e que pode afetar, em maior ou menor grau, a interação social, a comunicação e o comportamento das pessoas portadoras.
Lá no começo
Sou a caçula, então não lembro do “piripaque” que minha mãe quase teve quando o psiquiatra diagnosticou meu irmão como autista aos 3 anos. Ela conta que por um bom tempo todos os dias ela corria com falta de ar para a emergência do hospital, na companhia do meu pai, achando que ia enfartar. Sim, gente, por mais que ao superar esta fase inicial ela tenha vestido a roupa de supermãe para nunca mais tirar, ela teve a fase de fraqueza e também de se perguntar “por que com o meu filho?!”
A infância
O que posso dizer é que não lembro do dia em que eu sai com os meus pais para fazer um passeio e o meu irmão ficou em casa porque “era autista” ou porque “ele poderia causar algum constrangimento”. Isso, todos dizem, teve uma grande influência no que Júnior é hoje: uma pessoa tranquila, carinhosa, sociabilizada. Mas nem sempre ele foi assim… Lembro de crises histéricas que ele tinha em festinhas de aniversário, de surtos de agressividade comigo e com outras crianças. E eu não lembro, mas minha mãe conta que ele enfiou uma bolacha IMENSA na minha boca que quase me sufocou =))
Sim, teve tudo isso…Por mais que Júnior tivesse um suporte de profissionais – fonoaudiólogo, psiquiatra etc – e muita atenção e amor em casa, ele teve esses momentos um tanto comuns aos autistas durante a infância… E eu?! Olha..era tão normal para mim conviver com tudo aquilo que nunca tive medo dele e sempre fomos muito, muito próximos. Eu sempre tive um amor e carinho imensos pelo meu irmão. Minha mãe até conta que eu um dia cheguei para ela e disse: “Mãe, eu acho que não vou ser mais amiga de Marília (nome fictício) porque ela riu do meu irmão”. E aí foi toooooda uma psicologia de mãe para filha para ela me explicar que nem todo mundo sabia conviver com uma pessoa especial, mas que eu não precisava deixar de ser amiga de Marília, pois ela ainda era uma criança, não entendia muito bem as coisas…
A verdade é que eu era assim porque meus pais faziam questão de nos manter sempre juntos, porque tudo o que um tinha o outro tinha também e porque sempre exigiram muito respeito para Júnior. Rá! Ai de quem risse dele na praia, no parque, no restaurante -fosse lá onde fosse- se ele fizesse um gesto mais exagerado ou fora do contexto. Minha mãe não queria nem saber: subia nas tamancas e dava uma lição de moral no sujeito que a pessoa, quando não pedia desculpas, saia de cabeça baixa. Meu pai fazia um estilo mais contido, mas também já deixou muita gente vermelha de vergonha na rua.
A adolescência
E aí, né, gente, vieram os namorados…Eu sempre digo que, neste quesito, meus namorados  sempre foram pessoas fofas e sensíveis. Sempre trataram meu irmão com amizade e respeito e, acreditem, teve um que queria levar Júnior para perder a virgindade (!!!). Minha mãe não deixou (nem eu, né? =)). Mas foi uma nova fase na vida dos meus pais porque, afinal, os hormônios dos autistas também ficam a mil…Júnior nunca teve namorada. Não tem discernimento para entender como as relações se diferenciam. Ele apenas convive com as pessoas que fazem parte do seu mundo. Isso também varia entre autistas. Alguns são mais “isolados” no seu próprio mundo que outros.
Júnior não conversa. Ele apenas fala palavras soltas, se comunica sem muita clareza quando quer muito expressar algo. A linguagem pode ou não ser afetada pela síndrome do Autismo. E no caso dele, foi. Embora ele possa entrar e sair sem que alguém perceba que ele é autista, pois todas as suas funções motoras são supernormais, assim como a sua fisionomia, basta uma tentativa de interação e as pessoas percebem que há algo de diferente com ele…
E para acabar….
Bem, eu poderia escrever muito mais, contar um milhão de causos engraçados… não faltaria assunto…rsrsrs…Acho que vale acabar dizendo que ter um autista na família é um exercício de doação constante para todos. Minha mãe mesmo diz que eu irmão fez dela uma pessoa muito melhor. Eu, desde cedo, tenho um senso de responsabilidade grande. E de respeito pelo próximo. E digo que, no dia a dia, nunca nada da minha vida foi “diferente” da vida das minhas amigas por ter um irmão autista. Quer dizer…só a minha mãe, que era a única mãe que chorava nas minhas avaliações do balé…uma coisa tão corriqueira, onde nenhuma mãe chorava!!!…rsrsrs…mas ela diz que era  porque assistia e pensava: “enquanto uma faz tanta coisa, o outro faz tão pouco…” Ooooh =(.. Sim, autistas têm as suas limitações. Isso é uma realidade.
Primeiro, queria dizer em PÚBLICO que realmente Giu é uma pessoa ESPECIAL pela sua essência e por tudo que ela já vivenciou como vocês puderam ler! Amo-a incondicionalmente e independentemente da nossa distancia física! Segundo, olhe, não sei não! Este negócio de ter amigas Jornalistas, bem sucedidas e maravilhosas me enche de orgulho, viu? Tava atrás de Giu há tempos pra ela escrever sobre a vida dela e de Júnior para ver se saía no mês de Abril essa belezura de texto, pois foi o mês que tiveram várias campanhas sobre o Autismo! Mas não deu. Culpa dessa vida corrida que ela leva em SP, exatamente pelo mesmo motivo de ser maravilhosa e bem sucedida. Agora ninguém notou, né? Por que essa história é linda, é rica e atemporal! Todos os meses eu amaria poder compartilhadas situações e realidades como a da Família de Giu! E vocês? Teriam alguma história igualmente especial pra nos contar? Manda pra mim: bruna@maetamorfose.com