Mãetamorfose em Palavras

Mãetamorfose tu: O puerpério e a Amamentação

19 set de 2017 comentários


IMG_6690Há 10 anos eu fiz uma mamoplastia. Três meses depois da cirurgia fui diagnostica com displasia e meu peito cresceu de novo. Cheguei a ir em outros cirurgiões e minha única ressalva de fazer uma segunda mamoplastia era não conseguir amamentar, já que a cada cirurgia as chances diminuiriam. Fui para um cirurgião infeliz que me disse: “esqueça amamentação. Não há possibilidade de você amamentar depois dessa sua primeira cirurgia, independentemente da segunda, você não terá leite”.
Eu ainda penso em voltar no consultório dele só pra mostrar a quantidade de leite que sai do meu peito. Não sabe ele, mas aquela frase nunca saiu da minha cabeça por todos esses anos.

Eu precisava começar o meu relato contando esse acontecimento.

Amamentação. Eita desafio grande. Eu não fazia ideia do que me esperava. Também desconhecia tamanha persistência da minha pessoa. É bem verdade que nasceu uma nova mulher aqui dentro. Eu me redescobri e conheci uma Raissa bem mais forte.

Ainda na sala de parto, Mariana Bahia, uma das minhas doulas, que também é consultora de amamentação, me ajudou a colocar Luiz Antônio no peito. Ele mamou, mas no calor das emoções o contato era bem mais importante do que a nutrição em si, então foi mais carinho do que mamada. Chegamos no quarto e alí sim começava a amamentação de verdade. Eu já estava emocionada em ver que tinha colostro. Comecei a amamentar com ajuda de Mari, lembrando tudo que li e todas as informações que me foram dadas ainda na gestação. A pega era perfeita mas alí, nas primeiras horas de vida dele, eu já percebia o peito machucado. “Besteira, o importante é que eu tenho colostro e ele tá mamando. Vamos a diante!” E aí começou a fissurar pra valer.  Como é que um peito consegue cicatrizar uma ferida se a cada 30min (às vezes menos) um bebê vem com tudo em cima da ferida? É uma dor de outro mundo. Se você ainda não viveu isso não sabe do que estou falando. Só sabe a dor de um peito fissurado quem já teve um peito fissurado.

Da fissura veio a pus, o sangue, o fungo. Lembro de Mari me ajudar com posições diferentes mas nada funcionava. Eu tinha o pacote completo. Esqueça roupa, eu não conseguia colocar nada em cima do peito. O lençol batia durante a noite e eu ia no céu de tanta dor, tomar banho era dolorido, absolutamente tudo doía.

Fui em busca de ajuda de vários profissionais bacanas que existem nesse meio. Fiz aplicação de lazer com Vivi que é daquelas que cicatrizam o peito e o coração. No pacote dela vem carinho de muito, uma das pessoas que eu agradeço por ter cruzado meu caminho durante essa luta. Pois bem, Vivi cicatrizou com o laser, até a próxima mamada pelo menos. Será que eu era a única a passar esse perrengue? Nas redes sociais amamentar é a coisa mais sublime do mundo. Me perguntei inúmeras vezes se o problema era comigo, se eu era a única que chorava e me arrepiava só de saber que faltava pouco tempo pra amamentar novamente. “Não é possível que só eu viva esse tormento.”

30h depois do nascimento de Tomtom meu leite desceu (antes disso era só colostro), a famosa apojadura. Mari confirmou: “É leite sim, e não é pouco!” Eu e minha mãe choramos juntas emocionadas – “Aquele médico definitivamente falou besteira. Apesar do perrengue, estou aqui cheia de leite pra alimentar o meu filho. Não tenho do que reclamar!”
A apojadura significa uma produção de leite enorme! O corpo produz em grande quantidade pra depois ir se moldando a necessidade do bebê. Camila e Mariana (doulas) se revezavam nas infinitas massagens pra tirar os nódulos e não pedrar meus peitos. As meninas foram incansáveis (se meus peitos tivessem vida própria estavam agradecendo a elas até hoje).

Muito leite no peito e o bebê não dá conta. Acontece o que? Uma mastite, que nada mais é do que uma inflamação das glândulas mamárias. O peito tá enorme, cheio de placas vermelhas, quente e duro. Vem a febre, calafrios, uma agonia. Somado a isso, as fissuras, que não me permitiam ordenhar o leite nas famosas e práticas desmamadeiras elétricas. O que me restava era uma ordenha manual. Tirar na mão o leite que estava alí acumulado. Ordenha manual com peito machucado e inflamado dói muito e é bem difícil. Tem que ter paciência e engolir o choro. Nessa hora pude contar com um anjo chamado Verónica. Técnica de enfermagem que ordenha como ninguém! Fechei os olhos, engoli o choro e deixei Verónica tomar conta desses dois filhos que eram meus peitos. E a danada secou os dois, na mão. Passada algumas horas lá estavam eles, cheios de novo. E esse processo parecia infinito, não acabava nunca!

Pois bem, as fissuras continuavam lá e em meio ao desespero sai apelando para tudo o que me diziam. Açúcar, casca de banana… o que mais dissessem eu ia lá e testava. Umas coisas melhoravam, mas aí vinha o meu pequeno, com uma sucção mais forte que tudo, e a ferida abria de novo.

No meio do puerpério a gente tá ainda mais vulnerável e eu estava daquele jeito, sem parar de chorar. Apesar do suporte enorme que eu recebia da minha família, o choro era involuntário e incessante. No meio de uma crise de choro, Camila, minha outra doula (que também é minha prima, irmã e amiga) me disse que tinha chamado Dra Amenaide pra me ver. Ela é médica, pediatra e responsável pelo banco de leite do CISAM. Era 22h de algum dia de semana, e aí chegou Dra Amenaide na minha casa, visivelmente cansada depois de um longo dia de trabalho. Ainda na sala, quando eu estava pronta pra mostrar meus peitos, ela interrompeu: “Calma! Primeiro eu quero saber de você. Como você está?” Han? Como assim alguém quer saber de mim? E claro que eu cai no choro e não consegui responder. Mas ela me abraçou e alí enxerguei a importância de cuidar de mim primeiro pra depois conseguir alimentar o meu pequeno. Amenaide é daqueles anjos que acalmam a alma. Me deu carinho, atenção, suporte, informação e foi peça fundamental nessa minha jornada. Me deixou amamentando e sem chorar, coisa de Deus mesmo. Mas bastou ela ir embora… Tudo começava outra vez. O cansaço, choro, peito ferido…

A luta continuou. Fissura aberta, uma dor que latejava o peito todo e o emocional que nunca estava bem, uma verdadeira gangorra. Eu realmente não acreditava que isso teria um fim. Não entendia como as pessoas podiam afirmar que amamentar era prazeroso. Que loucura!!!

Era um domingo a noite quando Tom saiu do peito e vi a boca dele toda suja de sangue. Meu peito estava pingando sangue. “Tá bom”, meu marido implorou! A gente precisa dar um tempo nisso, esse peito tem que respirar pra cicatrizar. Mas dizer a uma mãe puérpera e cheia de leite pra dar leite artificial pro seu filho é o mesmo que pedir pra ela dar veneno. Quanto mais eu pensava nessa possibilidade mais eu chorava, como se isso significasse abrir mão de tudo que eu já tinha passado e aguentado. No meio dessa confusão o telefone toca: Dr Thiago, meu médico obstetra querido. Verónica (técnica de enfermagem) tinha fofocado pra ele que eu estava no limite. E ele me liga com aquela voz calma. Pediu pra eu chamar André junto e colocar a ligação no viva-voz: “Rai, você precisa descansar. Desse jeito você não vai conseguir dar o seu melhor pra Tom. Ele precisa de você bem. André, vai na farmácia, compra o leite X e dê pra Tom, por cinco dias. Bote Rai debaixo do chuveiro e depois coloque ela na cama. Ela precisa de carinho e descanso”
Vindo de Thiago parecia que a culpa era menor. Soava como recomendação médica, eu não tinha escolha. Foi exatamente o que fizemos. Não foi fácil, parecia que eu tava abrindo mão de amamentar, chorei dando aquele leite branco pra Tom. Além de tudo eu não queria dar mamadeira, tinha medo de depois de todo sacrifício ele fizesse confusão de bico – muito comum o bebê largar o peito depois que experimenta a mamadeira. Sabendo disso optei por copinho. E que melequeira era aquilo. Tom ficava impaciente, o leite derramava, eu ficava nervosa, que deixava André nervoso. A grande sorte é que moro no mesmo prédio dos meus pais e mãe é mãe, né? Minha mãe subia aqui em casa e dava o copinho a Tom, sem melequeira. E foi assim até eu me acostumar e começar a ficar craque no tal do copinho (Obrigada também por isso, mainha!)

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05 dias se passaram e voltamos pro peito, que estava 80% bom. Advinha? Tudo voltou. Fissura de novo! “Ahh, deve ser problema com Tomtom. No freio da língua ou no freio do lábio. Por que a pega é perfeita, não justifica”. E assim, coincidentemente, recebi a visita da cunhada da minha irmã, referência em odontopediatra. Aquelas visitas que chegam do nada e a gente desaba no chororô. Cândida, além de me abraçar e prometer que as coisas iam melhorar, examinou Tomtom e confirmou que ele não tinha problemas no freio da língua e lábio e me deixou em casa mais tranquila depois das palavras de “eu sei o que você tá passando, não tem nada errado. Puerpério + amamentação é um grande desafio”. Ufa, eu não tou sozinha nesse sofrimento!

Depois de receber em casa várias pessoas e nenhuma delas resolver essa fissura o único conselho que me restava era o que muita gente me indicava: “vai no IMIP!” Mas levar um bebê de um mês de vida, sem vacinas, num hospital público? Foi quase uma semana relutando contra isso, mas fui. Era a última tentativa que me restava. Lá fui recebida por dois anjos. Celina, bióloga que trabalha há 29 anos no banco de leite do IMIP e Dra Vilneide, médica responsável pelo banco, uma referência nacional em aleitamento materno. Que sorte a minha! Ir no IMIP foi uma das melhores coisas que fiz. Conhecer aquele hospital me fez abrir a cabeça pra muita coisa, muito além da amamentação. Uma coisa eu pude constatar: a rede pública é MUITO melhor orientada do que a rede privada. O que fazem no banco de leite do IMIP é um trabalho belíssimo. Com poucos recursos (de dar dó), mas tudo funciona e o suporte que a gente recebe é emocionante <3

Depois de ver meu peito, Dra Vilneide me perguntou se eu tinha certeza que queria continuar. Me confortou dizendo que eu já tinha feito muito e que eu tinha o apoio dela para parar a amamentação. Escutar aquilo dela, que é a bãbãbã da amamentação, poderia me dar respaldo pra jogar tudo pro alto, mas saber que eu já tinha feito muito me deu ainda mais ânimo para continuar. Eu tinha muito leite, queria seguir tentando. Todo mundo diz que uma hora vinga, não é possível que minha hora não fosse chegar. E aí Vilneide, depois de confirmar que eu tinha “perdido substância” (um pedaço do mamilo), me indicou a translactação, que é o leite (meu ou fórmula) dado junto com o peito, por via de sonda. Assim o bebê puxa menos o peito e não fissura tanto, além de continuar estimulando a produção de leite. Desse jeito não teria risco de fazer confusão de bico (nem de fluxo – o copinho tem esse defeito). O contato continua igual, bebê no peito feliz e mãe mais tranquila. Foram dias de malabarismo pra conseguir fazer a translactação. Que trabalheira! Em plena madrugada encher aos poucos uma seringa que ficava grudada em mim. Todos os dias era banho de leite, em mim e em Tomtom. Passamos um bom tempo nesse perrengue até que começou a aparecer um nódulo um pouco grande (e todo dia aumentava mais) no meu peito esquerdo. O que danado era aquilo? No ultrassom confirmaram: galactocele. Galacto o quê? O que danado é isso? E aí iniciava mais um capítulo da minha amamentação.

Galactocele é um nódulo cístico contendo leite ou uma substância leitosa que geralmente está localizado nas glândulas mamárias, causado por uma infecção. E o meu, particularmente, era duro como uma pedra e grande como uma bola de tênis. Lembro da cara de Mari Bahia pegando o meu peito e tentando disfarçar a preocupação. Mas eu sabia que alí vinha mais sofrimento. E agora? Fui para uma mastologista indicada por Dr Reginaldo, pediatra querido e atencioso de Tom. Dra Sheilla, que estava com uma barriga enorme, pra ter bebê a qualquer momento, se sensibilizou com minha história e foi mais uma pra lista de pessoas especiais que fizeram parte dessa minha luta. A indicação dela era fazer uma punção no peito pra drenar aquele nódulo gigante que já estava com 10cm. Mas antes solicitou outro ultrassom pra confirmar o diagnóstico. E, pra minha surpresa, além da galactocele também tinha um abscesso nesse mesmo peito. O que é abscesso mamário? “Uma coleção de pús que pode estar localizada abaixo da pele, atrás da aréola ou tecido mamário e nas estruturas atrás da mama. Pode acontecer de forma aguda ou crônica. Apenas cinco a 10 % das mastites durante a amamentação evoluem para abscesso.” E sim, eu estava nessa porcentagem pra fechar a amamentação com todas as intercorrências que uma mulher pode ter.

Fui submetida a três punções para drenar o pus e depois delas a médica me tranquilizou que eu não precisaria passar por uma intervenção cirúrgica – ainda corria risco disso! Agora era só esperar o nódulo ir desaparecendo aos poucos. Sobre amamentar, Dra Sheilla, mastologista, deixou a decisão em minhas mãos. “Você pode continuar se quiser, essa decisão é só sua”

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Meu peito ainda estava fissurado e o fungo, persistente que só ele, continuava fazendo da amamentação um processo MUITO doloroso. Principalmente quando as mamadas eram longas. Tom não tinha tempo certo, às vezes eram 3, 4 horas contínuas de peito. Da fissura eu nem falo mais. Mas e aí? Depois de passar por tudo isso era tempo de desistir? E se a galactocele voltasse, eu estaria pronta pra passar por mais uma punção? E aquela hora, de amamentar sem dor, que todo mundo me disse que chegaria? Quando ia chegar pra mim? Uma coisa era certa: A palavra desistir é muito forte. Risquei ela da cabeça e do vocabulário. Eu não desistiria de nada, eu vinha enfrentando um leão por dia nesses dois meses e meio de amamentação. Minha decisão foi que, a partir daquele momento, eu iria amamentar por uma questão afetiva e não nutritiva. Não tenho saúde para encarar tudo de novo e tenho consciência que fiz o que pude. Optei por não tomar remédio para secar o leite. Quero continuar até quando achar que devo ou até quando o meu corpo quiser produzir alimento pra Tomtom. Mas de uma forma mais saudável pra mim, sendo unicamente por prazer. Tomtom vai continuar mamando 10, 15, 20 minutos algumas vezes por dia. Mas não mais por obrigação, onde eu tenha que ficar mordendo fralda pra aguentar a dor e chorando desesperada. Quis que esse fim de amamentação fosse de prazer, de encontro meu e dele. O que não tivemos nesse processo desde que ele nasceu.

E assim está sendo. Sem culpa, com leveza e MUITO amor por ele e por mim que cheguei até aqui.

(…)

Eu achei que meu relato tinha acabado aí. Mas no dia 25/08 tive um susto muito grande com um primo que passou mal e por muito pouco não nos deixou. O susto foi tão grande que a noite, quando fui amamentar Tom, percebi que o leite tinha secado. Estimulei mas nada de leite. Agora, definitivamente, a minha amamentação acabou. E, diante do susto com meu primo, não me permiti entristecer e lamentar. Eu tinha acabado de testemunhar o renascimento de alguém que amo e naquela hora só me restava agradecer pela vida de Romero (meu primo). Ver que Tom estava diante de mim, sorridente e também saudável independente do meu leite, ajudou a virar essa página sem nenhum sofrimento.

Aqui acaba essa história de doação, superação e muito amor. Tomtom me fez uma Raissa melhor depois desse processo. Muito a agradecer. Muito!

Texto por Raissa Wanderley, mãe de Luiz Antônio que já contou seu relato de parto por aqui.