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Mãetamorfose tu: Relato de Parto Raissa Wanderley

7 ago de 2017 comentários


relato parto raissa 2Parir via parto normal era um grande desejo, mas isso ficava pequeno quando eu mentalizava: que ele venha com saúde, no tempo dele, da melhor maneira. Isso estava acima da via de parto, lógico. Mas eu tinha que estar preparada caso o parto normal acontecesse.

A primeira coisa que fiz foi pesquisar sobre médicos e ler vários relatos. Uma coisa me encucava: por que com alguns médicos o parto normal nunca dava certo e com outros tinham 90% das mulheres parindo normal? Tem alguma coisa errada, não pode ser coincidência. Foram meses de pesquisa antes mesmo de liberar para engravidar. Uma coisa era unânime: esse tal de Dr Thiago Saraiva era um anjo em todos os relatos que eu lia. Fosse parto normal ou cesárea, ele era o guru da humanização e sim, pra quem não sabe, existe cesárea humanizada – a humanização vai muito além da via de parto. Pronto, tá decidido. Vou mudar de médico. Minha médica da vida toda era cesarista e, pra tentar ter um parto normal, eu sabia que tinha que ter alguém do meu lado que também quisesse isso. Fui em Thiago e me senti segura. Era ele quem eu queria ao meu lado.
Meses depois resolvi liberar e, no mesmo mês, veio a notícia que Luiz Antônio estava a caminho. Mal acreditei que ele veio tão rápido. Fiquei insegura com a danada da Zika mas fui no automático, me cuidando como podia.

Nas consultas de pré-natal, Thiago me falou da importância de me preparar pro parto e foi logo anotando livros e vídeos que eu tinha que ler/assistir. Nos primeiros vídeos eu e André, meu marido, ficamos pensando se era isso mesmo que queríamos. Por que tanto sofrimento se a cesárea tava alí pra gente passar por tudo sem dor? Mas aí começamos a ler os livros e relatos, assistir aos documentários e tivemos certeza de que era exatamente aquilo que queríamos. O parto normal era o mais seguro para o nosso filho. Ele escolheria o tempo dele. Passar pelo canal vaginal estimularia seu sistema imunológico. Bastou dar um Google para a gente entender tudo. Não era blog, não era achismo, eram muitas evidências científicas. Eram números nos mostrando que sim, esse era o melhor caminho que a gente podia escolher para a chegada do nosso menino. Quanto mais eu sabia mais eu queria saber. Informação é tudo!

Peça importante e fundamental nesse processo foram as minhas duas doulas, Camila Moraes e Mariana Bahia. Elas fizeram toda diferença desde o começo da gestação. Me encheram de informação, me mostraram todas as etapas e tudo o que eu podia decidir antecipadamente para aquela hora que seria a mais importante da minha vida. Eu poderia sim chegar a parir sem elas, mas não com a mesma serenidade, informações e preparo que estava naquele dia. Fez TODA a diferença!

40 semanas se passaram. Era 00h30 do dia 21/05/17 quando a minha bolsa estourou. Dei um grito e cai no choro com medo do que viria. Escutei de André: “Calma, amor! Era isso que a gente queria! Chegou a hora, agora é de verdade!” André me abraçou e em seguida mandamos mensagem para Dr Thiago, Camila e Mariana nossas doulas (ou porto seguro) e avisamos. Tá tudo certo, vamos descansar – bolsa estourar não significa sair correndo como acontece nas novelas – vamos esperar o trabalho de parto começar. Mas não deu tempo. Vinte minutos depois as contrações já estavam fortes, de 4 em 4 minutos. Camila chegou aqui em casa e logo depois Mariana. Tava tudo certo e planejado.

Tomei um banho quente e depois fiquei na bola enquanto as meninas me massageavam. André me dava frutas geladas na boca, mas quem disse que eu conseguia comer? Quando a dor vinha eu cuspia tudo, me sentia enjoada. As contrações ficaram mais fortes e as meninas me disseram que era hora de ir pro hospital. Coloquei a primeira roupa que vi na frente e fui respirando e me concentrando naquele processo.

Eu li muito, tinha na minha mente que aquela dor traria meu filho, não podia lutar contra ela, eu tinha que deixá-la vir, eu tinha que passar por ela, fazia parte. Costumo dizer que aquela dor era meu corpo se preparando pra ser mãe – não tinha como não ser avassaladora.

Cheguei no hospital e, para minha não surpresa, Thiago já estava lá me esperando com um “Chegou a hora, Rai!”. Nessas horas a gente agradece por ter um médico de verdade. Meus olhos terem visto ele no primeiro minuto que cheguei no hospital fez toda diferença. Eu sabia que daria tudo certo, seja lá como fosse, minha confiança em Thiago era total. Fui direto pra um quartinho do day clinic e Thiago fez o primeiro toque – 5cm de dilatação.

“André, liga pra mainha, avisa que estamos aqui”. No meu plano de parto, tinha decidido que só avisaria aos meus pais quando tivesse perto de nascer, pois sabia que eles sofreriam ao me ver sentindo dor e ninguém sabia quantas horas aquilo tudo ia durar. Mas na hora da dor eu quis tudo diferente, quis minha família perto. Queria saber que minha mãe tá aqui pertinho – a maternidade tem o dom de resgatar ainda mais nossa relação com nossas mães.
Nessa hora a dor já tava bem forte e eu seguia no automático, respirando e mentalizando: “vem, filho!”. Lembro de perguntar a hora e me disseram que eram 5h da manhã. Nessa hora Camila mandou eu prestar atenção na música e Alceu cantava pra mim “A voz do anjo sussurrou no meu ouvido / Eu não duvido já escuto os teus sinais / Que tu virias numa manhã de domingo / Eu te anuncio nos sinos das catedrais”. Era o universo me dizendo que estava tudo certo.

Deinha, amiga e melhor fotógrafa do mundo, chegou e sorriu pra mim. Pronto, alí estavam todos que eu queria. Estou segura, tá tudo certo. É só deixar fluir! Seguia me concentrando naquela dor louca que aumentava mais em cada contração.

relato parto raissa 3

relato parto raissa 4

O plano liberou o quarto e finalmente subimos. Mari foi encher a banheira enquanto Camila e André ficaram comigo no banheiro. A água quente do chuveiro nas minhas costas era um alívio e tanto. Migrei pra banheira, mas não deu tempo de enchê-la toda. A dor estava insuportável e nessa hora eu não conseguia pensar em mais nada, muito menos mentalizar. Eu tava no automático, na famosa partolândia – não falava, nem interagia, só respirava, chorava e esperava a dor ir e vir. Os intervalos eram curtos, 1min com dor, 1min sem dor. Quando a dor ia embora eu tinha a impressão que ia desmaiar, que não conseguia mais me sustentar e aí André me segurava mesmo. Até que percebi que cheguei no meu limite. Olhei para as meninas e falei: quero analgesia.

relato parto raissa 5

Tinha combinado com André que, caso eu pedisse analgesia, ele deveria me convencer a segurar mais um pouco. Quando André perguntou se eu tinha certeza, respondi sem titubear: Absoluta! E quem era doido de questionar mais alguma coisa? “Vamos pro bloco cirúrgico!” O tempo até chegar no bloco e fazer a danada da analgesia pareceu uma eternidade. A contração sentada a caminho do bloco foi a pior de todas. Eu me contorcia, chorava e não enxergava mais nada nem ninguém. Mas, enfim, vi Alexandre Dubeux e a analgesia foi feita. Finalmente eu voltei a ser gente. Conseguia falar, ouvir e interagir com as pessoas. Santa analgesia, que bom que ela existe! Óbvio que declarei meu eterno amor à Dubeux, anestesista que chamei de Jesus Cristo e prometi dar todo o meu prêmio da mega-sena caso ganhasse um dia. Não parava de agradecer por ter minha sanidade de volta.

O segundo toque foi feito: 9cm de dilatação. Falta pouco! Mas depois da analgesia bateu um sono incontrolável. Pedi pra Thiago para dormir 15 minutos, precisava muito! André, com os olhos arregalados, não acreditou naquele pedido. E claro que Thiago me deu esse tempo. Mandou todo mundo sair do bloco e me deixou sozinha com André, com as luzes apagadas e uma playlist massa tocando. Respirei fundo, dormi 5min e os outros 10 relaxei. Continuava sentindo as contrações e ainda eram dolorosas, mas tudo suportável. Liguei pra minha mãe que estava uma pilha de nervos do lado de fora: “Tá tudo certo, mãe. Tou tirando um cochilo pra recomeçar” (Quase matei ela do coração – “Isso é hora de tirar cochilo, Raissa?”). Thiago voltou com a equipe pro bloco. Sentei na bola pra Tom descer mais rápido. Fizemos o terceiro e último toque: 10cm, dilatação total! Vamos pra banqueta que Tomtom tá chegando.

André colocou a playlist que fizemos. Eu estava sentada, Camila, minha prima-irmã e doula, atrás de mim, segurando minha mão. André na minha frente, com as mãos prontas pra receber nosso filho. Mari, amiga amada e doula, atenta a tudo, e Deinha, quase que transparente de tão discreta, me olhava com um olhar doce, que nem sabia ela a paz que me trazia. Thiago e Vivi do lado repetindo: “Tá tudo certo, ele tá chegando!”. Eu agradeci demais aquele cenário. Que presente poder viver tudo isso! Meu filho ia nascer na hora dele, com todo o respeito que ele merecia.

Comecei a sentir uma pressão, uma vontade de fazer força e assim comecei o período expulsivo. Mas eu estava muito cansada, já eram quase 8h da manhã, com dor e estômago vazio. Fazia força mas me sentia muito fraca. Foi aí que Dubeux me ofereceu um copo de fanta gelada. Santa glicose! Bebi a lata toda e, cinco minutos depois, estava cheia de energia e voltando a fazer força.

Passado um tempo, chegou Luiz Antônio, às 8h31 do domingo, ao som de “A linha e o linho”, de Gilberto Gil. André pegou ele e trouxe para o meu colo. Que emoção!!! Que coisa incrível tinha acabado de acontecer! Eu tinha parido. Vi e senti meu filho sair de mim, que coisa avassaladora! O tempo parou e eu só enxergava ele. Não consegui parar de beijá-lo.

relato parto raissa 6

relato parto raissa 1

Reginaldo, pediatra querido, respeitou tudo que eu pedi e me deixou curtir aquele momento do jeitinho que a gente merecia. Ninguém tocou nele, ficou nos meus braços, sem tempo pra sair. Mamou e ficamos nos olhando. Aquela hora era só nossa. Quando eu achei que devia, pedi que André pegasse ele pra cortar o cordão que já tinha parado de pulsar. E aí ele saiu do meu colo pro colo do pai. André levou ele pra ser pesado e medido ali no bloco mesmo, diante dos meus olhos – nada de berçário, nada de ficar longe de mim. Saímos do bloco cirúrgico juntos, eu na cadeira e ele no bercinho. Pude assistir a reação da minha família ao vê-lo pela primeira vez. Que presente!!! Só de lembrar caio de choro de novo.

Cheguei no quarto, comi um sanduíche e fui pro banheiro tomar um banho gelado de cabeça. Ainda sem conseguir assimilar tanta coisa que tinha vivido. Lembro do choro de alívio e emoção durante aquele banho. Voltei e peguei ele ainda naquela mantinha azul do bloco, todo sujo de sangue, no colo da avó emocionada. Eu mesma limpei cada pedacinho dele, cada manchinha de sangue do parto, com todo cuidado e amor de quem tava conhecendo o grande amor da minha vida. Não nos separamos nem por um minuto desde que ele saiu de mim. E assim seguimos até agora, inseparáveis.

Texto por Raissa Wanderley, mãe de Luiz Antônio

Fotos: Andrea Rêgo Barroas