Mãetamorfose em Palavras

Meu relato de parto

27 out de 2016 comentários

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“Quando chegar a hora você vai saber” – Era o que me diziam, mas eu não soube. Nos filmes, o sinal é muito claro. A grávida está lá no meio da rua quando PÁ, a bolsa estoura, escorre litros de líquido pelo chão e todos correm para o hospital. Mas e na vida real?

As contrações já eram rotina, aquelas famosas “de treinamento”. Mas em um domingo de madrugada elas me acordaram como se quisessem ser “de verdade”. Nada de bolsa estourar, apenas as dores que aumentavam. A segunda feira foi inteira de exercícios, doula, mãe e madrinha concentradas até o momento que eu dissesse: “vamos para o hospital”.

Ao final do dia, as dores continuaram até o limite que eu até então conhecia. A noite chegou, e com ela o medo, como aquele medo do escuro, do desconhecido que se aproximava. Era a hora. Corremos para o hospital, papai, papagaio e periquito, para chegar lá e descobrir “1cm de dilatação!”. Dulce, se vc realmente quiser parto normal, vá pra casa.

Ali fiquei arrasada. Como assim eu tinha levado tooodo mundo para o hospital com 1cm de dilatação? Como assim essa dor que eu estou sentindo agora não é não tá nem próxima do que vou ainda sentir? Me senti enganada pelo próprio corpo e com a mente já exausta. Senti como se todos zombasse do meu “alarme falso”. Não soube a tal “hora certa”. E aquilo me doeu.

Por mais relatos que você leia, oq vai acontecer com você pode ser COMPLETAMENTE diferente. Acredito que no prox não passarei mais por isso, mas só agora depois de vivenciar o processo por completo, de conhecer os limites do meu corpo. Voltei pra casa. Não queria mais ninguém, nem marido, nem ninguém.

Resolvi então velar a minha dor sozinha, varando a madrugada olhando pela janela e me escorando quando “ela” vinha. A culpa de ter dado um alarme falso, me fez ter vergonha de pedir ajuda naquela dor de apenas 1cm de dilatação. Chorei sozinha, com medo, cansada. Até que a maternidade se revelou na sua forma mais pura. As 3hs da manhã, aquela que sabe e sente quando preciso dela mesmo sem pedir apareceu, minha mãe. Aquilo me deu forças para seguir em frente. Minha mãe me mostrando o caminho de “ser Mãe” de um jeito lindo.

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Horas e horas depois, chegava ao fim o sonho do parto normal. Depois de mais de 40hs de TP com 10h de parto ativo, iria partir para Cesária. Nesse momento me vi sozinha na sala de parto normal, o sangue ainda entre as pernas, e todo o cenário de bola suiça e banquinho agora estavam desocupados.

Estava em pé, parada, esperando alguém me levar para uma outra sala, aquela que eu não imaginava que iria. Todos haviam saído para se preparar para cirurgia, mas ninguém percebeu que eu havia ficado só. Senti como se estivessem fugido com “medo” da minha possível frustração.

Não era uma emergência, os batimentos de Helena estavam bem, mas algo não estava certo. Dilatação total em 10cm, várias tentativas de expulsão mas ela não vinha, não coroava. Ao fazer o último toque, o veredito, a suspeita de asinclitismo nos levaria para o bisturi. Ela não havia encaixado direito e a cabecinha dela começava a dar sinais que havia algo errado.

Lembro da delicadeza e firmeza da minha médica quando chegou bem pertinho de mim e disse: “Dulce não vai dar.” . Ela estava cumprindo nosso trato: Parto normal até onde não houver riscos reais para o bebê. Minha confiança nela me fez ter a certeza que aquela seria a melhor decisão. Estava segura e a vontade de ter minha bebê nos braços era imensa e para isso me cortaria até no meio se preciso fosse.

Senti que toda equipe médica, mãe, marido e doula, ficaram preocupados com a minha reação… Talvez eles também um pouco frustrados, afinal foram horas e horas ali juntos, contratação a contração, centimetro a centimetro. Pra que? Poderiamos ter ido direto pra cesaria certo? Errado. Não me arrependo 1 minuto que seja de todas as dores e amores que passei no trabalho de parto. Foi uma experiência única, me senti poderosa, senti a minha filha e a sua imensa vontade de vir ao mundo, e isso ninguem me tira, não importa se ela saiu de um corte na barriga.

E esse pensamento eu tive ali, naquele momento sozinha, antes da cesária, e foi ele que nunca me deixou arrepender da minha escolha.

“Dulce a sala esta pronta”. Finalmente vieram me buscar para a outra sala. Em questão de minutos, tudo estava pronto, no seu devido lugar. E o mais importante de tudo, consegui sentir que o carinho de todos também estava presente.

O envolvimento que tive com a “minha” equipe médica foi indescritível. Foram eles que tornaram a minha cesária a mais normal de todas. Senti o conforto da anestesista ao alisar as minhas costas e me medicar pela segunda vez. Senti seu apoio ao segurar a minha mão junto com a minha mãe para que eu não fosse amarrada. Continuei escutando a mesma playlist preparada para “o outro parto”, e pude escutar cantarolarem as minhas músicas.

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Eram 22h15, meu corpo tremia como nunca, até que abaixaram aquela cortina que nos separava e consegui ver Helena ainda saindo da minha barriga. Seu grito encheu meu coração. Seu choro me fez soluçar feito uma criança. E ela veio pra mim, para meus braços que a acalentaram tão rapidamente. Suas mãos ensaiavam me tocar enquanto seus grandes olhos já me encaravam. Fiquei com ela ali no meu colo por infinitos e inesquecíveis segundos. Conhecendo aquela minha nova parte que se desprendia fisicamenre de mim. Mas, ao colocar ela no meu peito, bem perto de onde vinha toda aquela emoção, aprendi que dali de dentro ela nunca saiu ou sairá um dia.

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Ela chegou como quis e a mim só coube vivenciar tudo isso com a maior gratidão do mundo. Essa foi a minha experiência, única como a de cada uma de vocês. Cada mãe com a sua história e escolhas, mas todas em busca de um desejo único, ter seu filho nos braços certo?